sexta-feira, maio 27, 2005

poesia artesanal

está tendo na cinelândia uma feira de livros. eu sempre passo por dentro do corredor da feira de livros pensando se por osmose consigo captar os espiritos ali presentes em palavras. um dia antes de entrar no corredor da feira fui abordado por um ser de cabelos encaracolados olhos verde-vermelhos angelicais que me perguntou: "você gosta de poesia ? " eu respondi que sim. ele me mostrou um bilhete-livreto amarelo e dobrado escrito a mão e disse que não conseguiu uma editora para publicar seus poemas e por isso fez essa "maloca" para colocar seus poemas. me pediu uma força e então me (ven)deu sua maloca de palavras.
fiquei lendo no elevador subindo pro trabalho.
fiquei lendo ao ligar o computador.
e do que li, que alias achei muito bom, transcrevo aqui sem a permissão do autor dois poemas, o primeiro foi o que eu mais me identifiquei e o segundo o que eu achei mais belo.

(SEM TITULO)

DESCOBRI QUE ESTAR
TRANQUILO ME ENCOMODA,
PREFIRO A ANGÚSTIA
A REVOLTA
E OS CAMINHOS TORTOS
QUE NÃO LEVAM PARA CASA.

(SEM TITULO)

AMANHECEU MARIA
EU(?)
CONTINUO NOITE
Ah... MARIA
AMANHECEU SOZINHA.
POBRE CORPO ESCULTURAL
SEDENTO DE SEXO E DOR
QUE, CULTIVAS A CAMA LOTADA
E A CASA VAZIA.

Renato Limão em Poesia Maloqueirista
(renato_limao@yahoo.com.br)

valeu limão !!!!!!

quinta-feira, maio 26, 2005

SOS parte 2

e mais um bilhete de SOS dentro de uma garrafa foi encontrado, e nele estava escrito:
"naveguei por abismos de mares, por navios naufragados e baleias em extinção, até chegar em suas mãos. esse não é um pedido de SOS. é um comunicado. a pessoa que escreveu está numa ilha no meio do atlantico. em uma ilha que não consta nas cartas náuticas. mas que ao mesmo tempo é facilmente encontrada. essa pessoa está a busca. ela não precisa de socorro. e não quer resgate. ela fica correndo ao redor da ilha como um cão correndo atrás de seu próprio rabo. ela está a procura. está procurando a coisa que ela acredita ser a mais dificil de ser encontrada. ela está a busca de si mesma. ai você se pergunta: porque então ela escreveu o bilhete? "

o caçador de abismos

Espero o próximo abismo. Laço uma linha tênue em um frágil graveto ao meu lado e na outra extremidade jogo uma flecha pro outro lado. hummm. tal qual um mestre dos nós, ajusto um pouco a corda. pronto. já está retesada o suficiente para me lançar! atravesso andando lentamente por sobre o desconhecido. sinto mais vontade de me jogar do que continuar andando. pronto. parei no meio. se eu chegar do outro lado terei passado a melhor parte: - o desafio! sim, sou um domador de meus próprios sentimentos desenfreados. agora, somente o medo. o pavor! o horror! e lá embaixo quem sabe?
continuo no meio da corda a balançar...
vislumbro lá embaixo meu pai sem dentes. vejo nessa linha minha salvação. mas não quero continuar. me lembro de um texto do nietzche: "o homem é uma corda atada entre o animal e o além do homem. uma corda sobre um abismo. perigoso olhar para trás. perigoso..." sim, perigoso. mas vivo ainda!
continuo no meio da corda a balançar...
se eu atravessar terei que encontrar outro abismo. uma incansável busca pelo esquecimento de mim mesmo. e aqui encontro com meu eu mais animal. aqui nessa linha encontro uma vida: a preparação, o hesitar, a crise, o medo, a esperança, a vontade, e por fim a glória ou a derrota. bah! não a glória e a derrota que vemos nos filmes de hollywood. a glória como transposição e a derrota como renascimento!
andei mais um pouco...
o fim está próximo. ali, logo ali a flecha: meu impulso vital. lá atrás o frágil graveto: minha melancolia.
hesito em chegar e essa aventura terminar.
hesito em terminar e ter que procurar mais um abismo a transpassar.
mas ficar aqui também me matará de tédio.
tenho que dar mais um passo.
pronto.
mais um fim.
mais um abismo se foi.
ficarei satisfeito até amanhã de manhã quando de novo o vazio tomará conta de mim.
aí,
lá vou eu mais uma vez a procurar
abismos a transpassar.

quarta-feira, maio 18, 2005

Hesitar

Só hesitamos quando estamos prontos. Quando temos tudo o que é necessário para dar o próximo passo, mas na hora, hesitamos. Trememos na base. Quero que TU tremas na base. Pois sei que já estás pronto. Já tens tudo o que precisa. Que falta para ir em direção à tua felicidade? Que mais precisas fazer? Estás a esperar o que? O que?

domingo, maio 15, 2005

Família

Família, o porto seguro de qualquer ser humano. Onde há amor sem limites, onde todos se ajudam, onde o que importa é o bem estar geral. Onde nos sentimos seguros e confortáveis. Onde podemos falar tudo o que vem a nossa cabeça, sem medo de que seja mal interpretado, sem que possamos perder nosso emprego, amizade ou posição. Mas e se não existe nada disso? O que é a família então? Darei assim um exemplo bem particular dessa organização social humana, a minha própria família.
Aqui, se há amor, trata-se de algo raro. Algo que quase nunca se vê. Se há, realmente não duvido, mas é visto como algo a se esconder, no fundo do porão, onde ninguém possa ver, e onde raramente lembramos que existe. O amor é guardado numa caixa lá no fundo, embaixo das caixas que contém tudo o que não tem a menor utilidade. Aqui, o que importa é o bem estar superficial. Se para aqueles que aparecem de vez em quando, e quando aparecem, me tranco no quarto e leio meu jornal, estiver tudo em harmonia,não há porque se preocupar. Estamos bem. Maravilhosamente bem!!
Família. Serão todas assim? Cheio de gente estranha que mal se conhece, que tem medo de conversar, que se irritam quando invadem seu espaço privado, como se estivessem virando de avesso sua própria alma? Se é assim uma família normal, tenho uma família feliz. Onde padrões familiares se repetem, de pai para filho, de mulher para homem, de homem para mulher, de pessoa para pessoa, perpetuando o mesmo erro, através de gerações e gerações, tornando a vida algo digno de ser amaldiçoado. Louvada seja a minha família! Onde tudo o que você quer, nunca se concretiza, e parece mesmo um crime hediondo.Onde cada tentativa de mudar as coisas é fadada ao fracasso antes mesmo de começar. Onde se vê que dinheiro não traz felicidade. Onde cada membro permanece sozinho e triste, como se estivesse isolado num deserto. Onde tudo e todos no fim são apenas tijolos que contribuem para a grande muralha, a grande prisão para qualquer afeto ou amor. Ainda bem que tenho minha família. Pois se tivesse nascido em outro lugar, talvez poderia ser feliz.

Mostrar-se

Faço parte deste mundo. Mesmo que não queira, faço parte. Sou um corpo animado, vivo, que perambula por essa terra abstrata de ninguém. Instinto de aparecer, diriam os pós-modernos. O ser humano aparece como fenômeno para si e para os outros. Quer queira, quer não. Tudo o que faço, tem uma consequência, por mais que isso seja tudo o que não quero. Quero viver minha vida em paz, sem consequências para ninguém. Praticamente tudo o que mostro, não é o que quero mostrar. De qualquer jeito, me mostro. Insconscientemente, me mostro. Como diria Heráclito, quando os meninos se entretinham a catar piolhos disseram: "Tudo o que vimos, tiramos, o que não vimos, carregamos conosco". O que mostro para os outros é pouco, mas ainda sim é mais do que desejaria mostrar. Permanece o essencial, o triste, o secreto dentro de mim, a me corroer, a dilacerar todo o amor. Mas ainda assim, meus atos, minhas ações, expressões, intelecções, falam mais do que gostaria que falassem. Falam por mim, mais do que eu próprio falo de fato. Meu silêncio, minha abstinência da vida, fala mais do que mil palavras que eu poderia escolher, falariam. Ainda assim, permanece o essencial. Ou não? Talvez eu diga tudo, talvez todos saibam do que eu mesmo não tenho conhecimento em mim mesmo. Talvez só hesitem em falar. Sabem de tudo, mas não falam. Observam como se observa um macaco no zóológico. Dizem eles por dentro: "Olha lá, como ele é inteligente, até parece que está tentando falar algo. Olha só, ele gosta de bananas. Ih! aquele gemido parecia que ele estava realmente dizendo algo.Meu Deus, será que ele não vê que é um macaco? Nossa, como ele parece humano". Falo mais do que gostaria de falar. Ou do que posso falar. Como se não soubessem. Como se eu pudesse esconder. Não há nada escondido, não há mistérios em meu ser, em minha pessoa, assim como não há mistérios no mundo. O que há, são mal intérpretes. Não conseguem ver além daquilo que vêem com os próprios olhos. Mesmo que esse além esteja tão nitido quanto o mais físico, mais material que um objeto pode ser. Não há metafísica, só há cegos. E numa terra de cegos, aquele que só tem um olho é rei.

terça-feira, maio 10, 2005

A incrível arte de ressucitar defuntos

mais um dia!!!!
vamos, levante moribundo! em marcha, ande!
ande logo, carregue seu fardo, e agradeça por estar leve demais.
e agradeça por estar vivo.
e agradeça por ter o que tens.
e agradeça pela saúde que tens.
e agradeça pelos poucos e preciosos amigos que tens.
e agradeça pela família que tens.
e agradeça pela incrível capacidade de conseguir hoje enxergar as cores nesse dia completamente cinza.

Vida

Estão todos mortos ao meu redor. Vivem somente para seus egos. Nenhum olhar que brilha, só o que vejo é sofrimento e confusão. Quero que todos morram para si mesmos! Morram para seus objetivos, sonhos e desejos enrustidos! Um lampejo de vida dá sinal em meu ventre mas hesita diante de cadáveres ambulantes dotados de sonhos, pensamentos e podridão. A mediocridade toma conta. Foda-se essa merda de geração! Não vejo vida em lugar algum.

segunda-feira, maio 09, 2005

SOS

minha poesia é repleta de mágoas. de sofrimento. de desamor.
minha alma é repleta de angústias. de sonhos não realizados. de desejos contidos. de tesões enrustidos.
meu dia-a-dia é repleto de questionamentos.
entro sempre num redemoinho envolvido pelos nebulosos braços que meu inconsciente criou. e náufrago jogo minha garrafa de SOS aonde está escrito: "queria saber o que querer".

hoje não vim mostrar minha felicidade.
hoje não vim falar de amor.

hoje não vim trazer a poesia.
hoje vim trazer a dor.

queria chorar todas as lágrimas. mas como viver como um peixe?

queria dizer coisas belas. energéticas. que provocassem aquele furor interior e iluminassem o dia depois de um temporal.

mas hoje foi muito pra mim.
hoje foi muito.
hoje foi.
ainda bem que o verbo está no passado.
passou.

mentira. não passou nada. mais uma vez engano-me. é difícil aceitar o meu inconsciente como sendo eu mesmo. pra mim ele parece uma entidade indomável. parece que ele conspira contra mim. sendo que na realidade ele me protege. é minha parte mais animal. o instinto da sobrevivência. mas será que ele não sabe que está me fazendo mal? que todo excesso de protecionismo acaba trazendo o seu revés?

do avesso me viro
no colo
do travesseiro
eu vivo


triste isso não? haha me deu até náuseas de tão ridículo. me senti um feto carente depois de escrever isso. mas tá ai pra quem quizer ler.
e no decorrer desse texto lendo e relendo e messenger pulando e outros e-mails sendo lidos foi tudo se passando.
está tudo ficando mais calmo. minha tristeza passando. até um sorriso saiu agora de meu rosto.
é, acho que o náufrago lá em cima acabou de ser resgatado.

quarta-feira, maio 04, 2005

Tristeza

Uma tristeza invade minha vida, sem pedir licença. Quem te chamou aqui? Estava tudo tão bem!!!!! De qualquer jeito, quer eu queira, quer não, ela está aqui. Como um parasita a me sugar toda a energia, a energia que fazia a máquina viver, a engrenagem rodar, com a missão de que tudo fique tão igual e monótono como estava. Que felicidade era minha vida! Como era bom meu tempo de máquina, uma máquina feita de pensamentos, meio enferrujada concordo, com alguns problemas de adaptação, mas nada que a tecnologia dos acontecimentos e do tempo não pudessem resolver. Eu era sim, uma máquina. Feita de pensamentos, que insistiam em ser logo contraditos, mas nada que o tempo não consertasse. Logo, tudo ficaria bem. Como estava.
Maldita tristeza que me apareceu, desfazendo meu sonho de continuar sempre sendo uma criançinha medíocre, que não desistia de dissolver todos os seus sonhos. Amaldiçoada seja essa tristeza, essa angústia que não cessa de me fazer crer que estou vivo, que devo olhar para minha existência como algo sagrado e infinitamente valioso. Mas que lástima! Será que não poderei mais me esconder entre máscaras que invalidam toda e qualquer experiência autêntica que eu possa ter? Nada mais de rotinas matematicamente calculadas, premeditando todo e qualquer risco que me faça acordar? Não terei mais uma vida completamente sem sentido, onde tudo e todos não possam me tocar onde realmente importa ser tocado? Onde pensamentos justifiquem o tempo todo minha posição tão confortável diante da vida, onde a filosofia, e haja tanta filosofia, que dê conta de tudo o que me faz hesitar diante do rio, correndo assustado e completamente desesperado quando meu pai me acena de sua canoa, feliz de ver minha disposição em substituí-lo na temível aventura que é a própria vida! como um torcedor na arquibancada de um estádio imenso que é a vida, criticando os jogadores, olha como eles são patéticos correndo atrás de uma bola, de um desejo,um objetivo, de um amor. Amaldicoada seja essa tristeza que me invade como um suplicar que diz "viva sua existência feliz."

terça-feira, maio 03, 2005

espelho

quero ver sua poesia !!!!
nada mais de livros e frases feitas !!!
nada mais de razão !!!
esvazie sua mente de tudo o que tem lido !!!
vomite todos os livros !!!
vomite kant .. shopenhauzeswarzneger ... nietzche ... platão ... baudelaire .... sartre ... buda .... jesus ... deixe os vermes comerem seu vômito ...
veja depois o que acontecerá: do vômito brotarão raízes, fungos, musgos enraizarão no chão criando o cimento da sua condição.
respire !!! respire !!!
inspire !!! inspire !!!
corra !!! corra !!!
pense !!! pense !!!
sinta !!! sinta !!!
seja a poesia !
viva a poesia !
escreva a poesia !
pare de ler esses filósofos !!! de um tempo a eles !!! de um tempo a você deles !!! vire você o filósofo !!! faça a sua filosofia !!! crie a sua filosofia !!! viva a sua filosofia !!! e que seja ela esquizofrenia de tanta poesia !!!
dance com a chuva !!!
dance com a sua filosofia !!!
dance com a sua poesia !!!
dance !!!

quarta-feira, abril 27, 2005

dança da chuva

dance!
até a chuva de tsunamis inundar
as ranhuras de sol penetrar
as fissuras do vazio transbordar

dance!
até a chuva o nada preencher
e aqui nas profundezas
algo de novo brotar em meu ser

dance!
até a chuva a tudo inundar
a cidade ser tomada pelo mar
e eu não ter mais que rimar

Dance

Lá-lá-lá-lá-lá-lá-lá-lá-ra-lá-ra-lá-lá-rá-lá!!!Tchu-tchu-tchu-tchu-tchu-tchu-tchu-ru-ru!!!Tchan-tchan-tchan-tchan-tchan-tchan-tchan-ra-ran-tchan-ra-ran-tchan-ra-ran!!!

Dance com a vida!

segunda-feira, abril 25, 2005

Prisão

o que eu acho ?
acho que eu nao acho nada.
nada eu acho embora nada já é alguma coisa.
nada e coisa nenhuma é a mesma coisa.
sendo coisa acaba sendo.
é.
pois nada é.
parece asneira mas não é.
parece babaquice mas não é.
parece coisa nenhuma mas acaba sendo coisa alguma.
quando alguem te diz obrigado vc responde: de nada.
não é por acaso.
por acaso, nada é muita coisa já.
quando alguem te pergunta depois de te fazer uma puta sacanagem: "o que vc tem?" e vc já puto da vida responde: "não é nada não".
po esse nada é muita coisa. e que coisa tenebrosa esse nada é.
é um nada que de tanto acaba sendo demasiado e é preferivel ser nada mesmo.
- é, não é nada não.
"sua voz está estranha. vc está tão estranho."
- é, não é nada não.
"vc está espumando"
- é, não é nada não.
"o que está acontecendo? suas veias da testa estão pulsando ..."
- é, não é nada não.
"meu deus!!! seu cabelo!!! está caindo!!!! sua cabeça!!! está crescendo!!!"
- é, não é nada não.
"caraca socorro!!!!!" - 190 - "o cara está tendo convulsões aqui!!!!"
- ai relaxa que não é nada não.
sirenes ambulancias fogo por todo lado ... a terra treme ... mega cabeção a vista e veias pra todo lado ... maremoto de lagrimas e babas ... megatons de cogumelos atomicos .... ahhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh
- mas aê ... não esquenta não que não é nada não.

Liberdade

Acredito que temos algo especial, algo que é comunicado além das palavras. Além de qualquer conversa. Algo que só nós vemos. Que nos faz pensar que temos algo que o resto das pessoas não tem, ou não se dá conta. É por isso que este blog existe.

Aqui se escreve o que quer. Sem estar de caso pensado. Sem banca para julgar nossas contradições, paradoxos. Mas mesmo assim, deve-se ter coerência, expressar algo que seja nosso, algo com algum significado, que seja minimamente interessante. Pois senão vira-se um completo neandertal. Não é essa a idéia. Acredito que a idéia desse blog seja destituir-se de todos os complexos, de todas as limitações, de toda a insegurança (e quanta insegurança) que ainda resta em nossos julgamentos. A idéia é sermos nós mesmos. Conhecermos a nós mesmos. Por mais paradoxal que isso possa ser em última análise. É colocar publicamente nossas crises, julgamentos, confusões, para termos a certeza de que somos normais, de que somos humanos, demasiadamente humanos. O ser humano é contraditório. Comunicar o que se passa em nossa alma, nossos pensamentos mais secretos e incomunicáveis. É essa a idéia. O que acha verme? Qual o significado de tudo isso?
Boa sorte para nós.

segunda-feira, abril 18, 2005

eu e mais eu e mais um pouco de mim

hj foi meu primeiro dia de terapia. engraçado a terapia ser no mesmo local que meu pai já estivera internado surtado de crise esquizofrênica - o ipub ao lado do pinel - e no mesmo local por onde passo quase todo fim de semana a caminho da urca ... escalar. passei pelo portão de ferro e fui quase que instintivamente guiado pro mesmo local aonde meu pai ficava internado achando que lá era o ambulatório. no jardim aonde os internos vão "passear" tinham placas escritas não sei se pelos internos ou por quem mas a primeira que eu vi foi: "isso é um lírio não um delírio". me incomodou. o outro que vi foi: "fonte dos desejos", em frente a um chafariz imundo inoperante e sem água. perguntei a uma mulher aonde era o ambulatório e ela disse que não era ali mas acolá. fui até acolá. a moça da recepção disse que a "minha" terapeuta ainda não tinha chegado então fui pro jardim dos internos pq lá tinha uma lanchonete. pedi um pão de queijo e um mate. fiquei reparando nos internos andando vegetorobóticos entupidos de remédios. e querendo virar o rosto para não olhar pra eles vi em baixo de uma árvore mais uma plaquinha daquelas com os dizeres: "o eu é uma árvore". querendo virar o rosto acabei levando um tapa na cara.continua me intrigando quem escreveu as placas. se foram os internos, é uma crítica feroz. se foram os médicos ... não sei nem o que dizer.no mais, a terapia foi boa. de cara já gostei. falava e falava e quando esperava algo de volta como acontece de costume quando conversamos com amigos, nada vinha. eu começava a rir. e falava e falava. depois parava. e minha cabeça vinha me falar: "você está se expondo muito". mas é pra isso que eu estou aqui. pra ver minhalma, descobrir o que eu quero. descobrir o que sou. mais falatório: eu, eu, minha família, meus pais, meu pai, meu padrasto, meus diversos pais. minha insatisfação. minha inconstância. minha impermanência. meus desamores. quanta coisa em menos de uma hora. suava. ria de nervoso. e o olhar impassível dela fixo em mim. e eu olhando pros ladrilhos brancos numa sala fechada. saturei-me de mim mesmo. sai de lá rindo. e pensei na resposta que dei quando ela me perguntou o que eu estava fazendo ali. a resposta foi verdadeira mas não foi A resposta. a verdadeira resposta seria: "quero descobrir o que eu quero REALMENTE. livre de qualquer falso querer." é essa minha atual busca - saber o que buscar.

domingo, abril 17, 2005

Online

Finalmente conectado. O corpo e o espírito são uma coisa só. Não se separam nem por um instante. Até porque só há o instante. O agora. O presente sem duração. Mas isso é insuficiente. A filosofia é só metade do caminho. Agora compreendo. O caminho é o caminho do meio. Deus encarnado. O espírito se dá no corpo, e o corpo é o espírito feito matéria. Não há um caminho para fora. Não existe dentro e fora. Nada se separa. Não há multiplicidade. Só há o um. Spinoza. Uma substância. Mas isso continua sendo só filosofia. Sem o corpo, sem a experiência, a filosofia não faz o menor sentido. É punheta mental. Masturbação sem ejaculação. Mas o corpo sem o espírito é somente um defunto. Morto. Os opostos se complementam. Tudo conectado.
Mas o caminho, embora nunca tenhamos saído dele, é longo e árduo. A iluminação não se dá no fim do caminho, mas sem o caminho não há iluminação. A iluminação é compreender que só há o Um. Não há separação. Corpo e mente. Alma e corpo. Eu e você. Deus e Eu. Dia, noite, amor e ódio. Tudo e nada. Eu e a vida. Chorar é uma compreensão disso. Estamos salvos. Sempre estivemos. Só nos resta nos darmos conta disso. O caminho é penoso. Mas é só um caminho. Só há um caminho. Já estamos nele.

sábado, abril 16, 2005

TAO QUAO

no parque lage, enquanto vc estava no curso de taoismo eu estava no meio da trilha procurando a base de uma escalada na face sul do corcovado.
ambos à procura.
tao quao selvagens em busca do conhecido desconhecido.
depois de subir por uma trilha ingrime, meu coração a 9999 bpm, no meio da mata completamente fechada sem conseguir ver direito aonde estava, veio uma clareira e pude ver o imenso paredão a minha frente. essa parede colossal, virada pra lagoa, desde de pequeno me facinou.
parei.
o coração batendo forte.
meus olhos virados pro paredão.
o som do coração.
o som dos pássaros.
das cigarras.
dos carros.
dos helicópteros.
meus olhos 360º.
respiração ofegante.
duas borboletas azuis imensas.
insetos a contra luz.
poeiras a contra luz. (spielberg morreria de inveja ...)
arrepios intensos vindo pela coluna até a nuca.
meu cabelo arrepiando-se.
lágrimas nos olhos.
tak tak putz tumq tumq plaxssssss !!! caracaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa !!!!
tudo se conectou !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
sou parte integrante disso !!!! como a natureza é perfeita !!!!!! nem onda de ecstasy chega perto do que senti. foi tão forte, mas tão forte que chorei. chorei. e agradeci a deus e a todos os santos por isso. virei um macaco. um átomo. um inseto. de tudo depois me reduzi a nada. esfarelei. e me reconstitui.
santa beatitude ultrasônica sintônica cósmica !!!!!

escrever

sem nada pra escrever
sem vontade de nada escrever
apenas essas palavras sem sentido no momento
essa necessidade de escrever sem ter nada a dizer
apenas o dizer nada pra escrever o que bem entender
se bem que se quizer entender: nada a dizer !

Minotauro

A luta é interna, travada no labirinto da própria psiquê. Mas o labirinto agora já é conhecido. Muitos já passaram por ele. Jesus, Buda, Maomé...Todos os verdadeiros homens/heróis. Temos apenas de seguir o fio de Ariadne. Porém, o Minotauro, o grande dragão, continua a espreita, esperando no fim do labirinto de nossa própria mente. Ainda temos de enfrentá-lo. Ou você acha que pode chegar a verdade sem passar pelos mesmos obstáculos que os heróis de outros tempos?
O grande inimigo é o próprio herói que se aventura no caminho da espiritualidade. O dragão que habita dentro de si mesmo. O minotauro é o aspecto terrível do mistério da própria vida. Apenas vencendo esta batalha é que se pode chegar ao Ser. Ao centro de nossa própria existência, que está dentro de nós. Os deuses são apenas simbolos, imagens projetadas da propria energia que habita em cada um de nós. Satan é apenas a matéria que projeta a sombra da luz do que nós realmente somos. Somos luz. O inferno é identificar-se com a sombra e não com a luz.

segunda-feira, abril 11, 2005

sábado, abril 09, 2005

Desejos

O rio permanece poluído
Mas o rio
Não é para ser visto
Mas sentido
Através da sujeira
Do esgoto moral
Do óleo
Fabricado
Na indústria
Da própria vida

Subconsciente

Tenho sonhado com serpentes...o pai cobra está exigindo meu prepúcio...ele está vindo me pegar...

VAIDADE

Preso do lado de lá
O universo inteiro
Dentro de minhas entranhas
Todo o amor dilacerado
Flutuando


"E lá, onde pensávamos encontrar uma abominação, encontraremos uma divindade.
Onde pensávamos matar alguém, mataremos a nós mesmos. Onde pensávamos viajar para o exterior, atinjiremos o centro da nossa própria existencia. Onde pensávamos estar sozinhos, estaremos com o mundo inteiro".

Joseph Campbell

quarta-feira, abril 06, 2005

mar

tenho tido sonhos acordado acordeon.
pastos secos. planícies secas. lampião. bois esqueléticos famintos. urubus.
e ao longe nada.
meu pé seco rachado andando vagando perdido. não por não saber aonde estou.
perdido sem ter pra onde ir. sem ter vontade de ir aonde ir.
apenas vagante. galopante.
visto jeans e nenhuma camisa. um colar de couro. barba por fazer.
suor escorrendo por cima do anterior já ressecado.
paro. descanso.
olhar perdido perto de uma falésia com pequenas gramíneas. arbustos secos. tudo seco.
inclusive minha boca.
sol. muito sol.
lagarteado estou embaixo de uma arvore.
a falésia cor ocre ao meu lado e a árvore são minhas únicas proteções aqui.
me sinto no filme do glauber "dragão da maldade contra o santo guerreiro".
será dele que me vem essas visões ?
ou o filme me despertou lembranças adormecidas de outras vidas em minhas células ?
o que faço aqui nesse lugar ?
espero "uma mulher com os olhos de trovão".
não sinto fome.
não sinto sede.
não sinto tristeza.
não sinto felicidade.
não sinto vontade de rir nem de chorar.
não sinto nada.
apenas contemplo.
aqui não tenho passado futuro presente.
aqui estou.
aqui sou.

crises

até para criarmos o nome do blog foi dificil .... pra ver como é a crise ....

terça-feira, setembro 09, 2003

 Aconteceu de novo! Socorro!

Estava de novo na mesma aula e quando escrevi a palavra "corresponde" eu me esqueci como escrevia e qual palavra estava escrevendo. Deu um blackout, um branco total no cérebro, me vi impotente em milésimos de segundo, porém, sozinhas, minhas mãos completaram a palavra sem a minha consciência!!! O que está acontecendo comigo? Estou tomando con[sciência ......]

Eu já tinha reparado certa vez que as coisas que você está acostumado a fazer tantas vezes fluem naturalmente sem você ter que pensar e reparar que as está fazendo. Já parou para pensar como sua letra sai estranha no papel e como os desenhos que são as letras, símbolos, foram impostos e incrustados na sua "educação" e agora você as faz sem saber porque e nem como?

Indo mais longe, você compra uma roupa sem saber porque. Acha que fazer 18 anos e dirigir vai mudar sua vida. São coisas que você faz impulsionado por uma força inconsciente. Algumas delas vem de você e outras vem de fora. De quem é aquela frase mesmo? "O homem nasce bom, a sociedade o corrompe". Esse "bom" está ligado a qual vertente da relatividade da palavra "bom"?

E se eu começar a escrever agora tudo que me vem à cabeça sem limites, sem regras, com a máxima rapidez que consigo escrever? Queria poder escrever bem mais rápido para poder colocar no papel o Pico do Papagaio, minhas andanças indo ao almoço observando a Pedra da Gávea, pisando no chão de terra, sentindo cheiro da grama me lembrando de Mauá e das maravilhosas visões que lá tive: A Queijaria do Seu Tatu que vende o queijo Pedra Selada que certa vez voltei de carona pra Resende no caminhão de leite com uma ex namorada minha chamada Camila que aliás só de pensar nela me dá tesão e vontade de chupar ela toda e apertar o seus seios. Dentro da minha casa ao lado da geladeira a cozinha está apagada. Essa noite sonhei com Daniel ele estava com uma máscara de borracha cheio de desenhos e eu zoei ele a vera. A máscara não cobria o rosto todo e era transparente. Os desenhos eram meio-tribais-meio-celtas - bem a cara do Daniel. A namorada dele estava ao lado rindo. Ele ajeitou a máscara escondendo as partes que pareciam aonde acabava. Acordei achando isso engraçado, eram 7:33 e eu tinha que acordar às 8:00 para ir pro trabalho. Fechei o olho e acordei já eram 8:00, saco! Vida medíocre!! Acordei de mau humor tomei banho gelado e fui pro ônibus. Ah, comi um mamão não muito maduro. Que delícia poder ir pro Tibet. Ficar andando vagando sem rumo no meio do nada no meio da neve, só completamente só nesse frio glacial, nesse mundo sem uma só viva alma. Queria conhecer os monges, conhecer lugares que desconheço. Saco! A aula! Foda-se a aula, o meu trabalho, minha vida!  Quero no sábado acordar cedo e subir a pedra do sino só! Somente eu e as árvores e minha respiração e minhas passadas e os bichos e a terra e a grama e ar, ar, muito ar!! Aquele ar sem poluição, ar puro, ar natural e ver lá de cima toda Serra dos Órgãos, o Deus de Deus lá de cima e contemplar. Meus dedos estão começando a doer de tanto escrever. O professor falando de linux, o Vinicius aqui do lado lendo o que acabei de escrever na página passada, no passado passado mas que é tão atual, um pedaço de mim, um eu que vai indo em cada tinta derramada no papel. Aliás, esse papel aqui ara uma árvore!!! Nós somos os carrascos de nossas próprias vidas! Colocamos nossa cabeça na guilhotina e puxamos (soltamos) a corda. Meu triceps está doendo, meu braço também. Minhas mãos não respondem mais, queria continuar escrevendo mas acho que não vou conseguir... Melhorou agora, mudei de posição mas todas as coisas em que eu estava pensando se ligaram agora no barulho do ar-condicionado. Olha o meu estado: a aula rolando e eu fazendo auto-análise do meu cérebro. Escrevendo compulsivamente tudo que se passa em minha cabeça. O Vinicius aqui ao lado quis me passar a outra página dos meus escritos mas percebeu que eu estava em transe aqui e se eu parar aqui nunca mais. Nunca mais! Quero chorar! O mundo é meu mas estou preso!! Quero me soltar! Soltar as amarras, me livrar da prisão, sair do campo de prisioneiros! Da caverna!

Meu olho arde, horas no computador, dias no computador, até quando suportarei isso? Até quando suportarei o estilo de vida que levo? O que me resta são os planos do final de semana. Comprar equipamentos, roupas, coisas para minhas aventuras. Só isso que penso. No meu salário pra pagar a empregada, pagar as contas, comprar meu tênis. E é foda! Minha mãe e padrasto que estão pagando minha faculdade. Ah, quer saber? Já gastaram muita grana com cerveja... paguem minha faculdade mesmo. Egoista eu? Mundo-umbigo? Talvez... Mas, apesar de minhas crises de questão financeira, nunca estive tão bem!! E dizem que o dinheiro traz felicidade... burros!!!

Parei de escrever e fui andar pelo corredor. Eu estava acordado? O chão era chão? Meu andar eram pensamentos, as paredes eram ilusão, o mictório um cenário 3D. Estou acordado? Durmo? Qual a diferença do sonho e da realidade? Quando você tem uma polução noturna (entende-se gozar dormindo) mas ninguém o estava te tocando e nem você mesmo, que sentimentos e atividades mentais elétricas estão ocorrendo nesse momento? O chão estava curvo, as paredes caindo sobre mim. A perspectiva do mundo acabou. Estou salvo! Livre. Meus olhos vermelhos, empapuçados, parece que acabei de acordar!! Acordei? E se eu acordar como voltar para caverna? É óbvio que não acordei. Que pretensão. Ainda penso nas coisas materiais... 

As sombras das luzes da sala de aula são crayons e grafite. O professor uma marionete. Os alunos folha de papel soltos ao vento. O ar-condicionado o motor. Chega! Para! Tenho que voltar! Acorde! Ponto final.  

terça-feira, agosto 05, 2003

pedra da gávea

tem acontecido muitas coisas estranhas no meu dia a dia.
a realidade nos chega através dos sentidos. mas qual é a realidade sem os sentidos ?
hoje vi as folhas caindo na frente do ônibus mas elas estavam estranhas .. não eram mais simplesmente folhas caindo da árvore ... o movimento era mais brilhante era como se o meu cérebro tivesse me dizendo que elas estavam caindo e brilhando a luz do sol. Depois vi a pedra da gávea. que monumento espetacular imenso iponente. existe a milhares e milhares de anos.... quantas histórias ela tem para nos contar ?
e nós humanos ... somos tão jovens .... vivemos tão pouco ....
a água e o vento demoram milênios para tirar um grão de uma pedra.
e nós demoramos um segundo pra mudar de opinião.
um segundo pra dizer não.
um segundo podemos estar mortos.
um segundo podemos ejacular e brotar um filho.
um segundo e isso aqui já passou.
já foi.
mas a pedra da gávea continua ali. imóvel. perpétua. sábia. una. nua.